Gustavo Ortiz lança o álbum "Arrasto"
Sobre o Evento
Entre peso e movimento, Gustavo Ortiz apresenta “Arrasto”
Canções escritas ao longo de 15 anos investigam as forças que atravessam o cotidiano
“Arrasto” é o primeiro álbum de Gustavo Ortiz e reúne onze canções autorais e uma regravação. Com lançamento previsto para abril de 2026 pelo selo TRUQ, o disco amplia o caminho iniciado com o EP “Desafogo” (2025) e marca a estreia do artista em um trabalho de maior fôlego, tanto em número de faixas quanto em densidade conceitual e sonora.
O título do álbum concentra múltiplos sentidos. “Arrasto” é a força física que resiste à queda de um corpo em movimento, mas também nomeia a pesca predatória orientada pela lógica do mercado, o gesto de carregar afetos e relações ao longo da vida, e o movimento do mar que aproxima e afasta. Ainda que a palavra não apareça diretamente nas letras, seus significados atravessam todo o disco como metáfora das pressões sociais, emocionais e materiais que incidem sobre a experiência cotidiana - especialmente sobre a vida da classe trabalhadora.
As canções que compõem “Arrasto” foram escritas ao longo de cerca de 15 anos e organizadas a partir de um recorte conceitual desenvolvido em parceria com Romulo Fróes, responsável pela direção artística do álbum. O processo não partiu de um apanhado cronológico, mas da construção de um conjunto coeso, em que temas como trabalho, luto, amor, amizade, preconceito, espiritualidade e resistência coletiva se articulam a partir de diferentes perspectivas.
Ao longo de suas 12 faixas, o disco propõe uma escuta atenta às forças que nos atravessam e aos modos possíveis de enfrentamento. A abertura, com “Sangue Lunar”, apresenta um registro de amor atravessado por pulsão, vertigem e movimento. “Antena Atenta” surge como um eixo conceitual do álbum, dialogando com o pensamento indígena de Ailton Krenak e a necessidade de criar “paraquedas coloridos” diante das quedas inevitáveis da vida. A regravação de “Afoxé do Nego Véio”, de Naná Vasconcelos, introduz a celebração do corpo como gesto político e resistência cotidiana.
Faixas como “Peixe Pescado” e “Cícera” abordam diretamente o trabalho, o racismo estrutural e a força da criação coletiva, enquanto canções como “Dia de Morrer na Praia”, “Quando Já Era Saudade” e “Por Ser Assim” se voltam a experiências de fracasso, luto e transformação íntima. O disco se encerra em tom épico e ritualístico, reafirmando a ideia de que a resistência só pode ser construída de forma coletiva, como um movimento contra as redes que tentam nos arrastar.
A sonoridade do álbum se estrutura a partir de uma banda base formada por Marcelo Cabral (baixo), Biel Basile (bateria) e Rodrigo Campos (guitarras, cavaco e percussões), presentes juntos em nove das doze faixas. A incorporação constante do baixo e da bateria - ausentes no EP anterior - amplia o campo rítmico e harmônico do trabalho, adicionando peso, densidade e groove às canções. Os arranjos foram pensados caso a caso, sempre a partir das demandas específicas de cada faixa.
O álbum reúne ainda participações de Romulo Fróes, que divide os vocais em “Dia de Morrer na Praia”, Thiago França, responsável por saxofones, flautas e pelo arranjo de metais de “Cícera”, além de Allan Abbadia, Bruna Lucchesi, Luísa Caetano, Graciela Soares, Victória dos Santos, Daniel Antonio e outros músicos convidados. A identidade visual do disco é assinada pelo designer gráfico Thiago Lacaz, com uma proposta que dialoga com ideias de deslocamento, peso, fluxo e resistência.
“Arrasto” foi viabilizado por meio do Edital Fomento CultSP PNAB Nº 24/2024 para Gravação e Lançamento de Álbum Musical Inédito, permitindo uma produção remunerada e tecnicamente mais ampla. O disco também evidencia o papel fundamental das políticas públicas de incentivo à cultura e os desafios estruturais enfrentados por artistas no Brasil, cujas trajetórias frequentemente dependem de editais e financiamentos específicos para se concretizarem.
Cantor, compositor e antropólogo, Gustavo Ortiz desenvolve uma obra que dialoga diretamente com sua formação em Ciências Sociais e com pesquisas realizadas junto a povos indígenas ao longo da última década. Em “Arrasto”, essas experiências se transformam em canções que observam com cuidado a vida cotidiana e afirmam a criação coletiva como uma possível força de resistência diante das pressões do mundo contemporâneo.







