Um Xirê para Emanoel
Sobre o Evento
Um Xirê para Emanoel: tecendo memórias, forjando caminhos
A exposição Um Xirê para Emanoel é mais do que uma mostra de arte; é um convite à imersão em uma profunda pedagogia do sensível, um tributo vibrante ao legado de Emanoel Araujo (1940–2022), um dos mais influentes artistas e intelectuais brasileiros. Esta curadoria se propõe a fortalecer a memória institucional e a expandir o alcance de sua obra, estabelecendo um diálogo entre diferentes gerações e materialidades que, juntas, tecem uma riqueza de significados.
O título Um Xirê para Emanoel evoca a roda sagrada do Candomblé, um movimento contínuo de celebração e reverência aos Orixás. É nesse espírito que as 22 obras de Alberto Pitta se dispõem, criando um ambiente de confluência insurgente. Pitta, com sua maestria na serigrafia e na pintura, utiliza os brancos de Oxalá como base simbólica, infundindo em suas telas e tecidos os signos seculares de África. Para o artista, esta exposição é uma “ode àquele que dedicou sua vida inteira à promoção e valorização da arte negra brasileira”, um reconhecimento a Emanoel Araujo como um “Ogum disposto a vencer todas as batalhas e demandas”, que transformou o espaço em um lugar mais puro e sagrado. A materialidade têxtil e a técnica de Pitta não apenas expressam a ancestralidade, mas também convidam o público a um mergulho sensorial, no qual o azul de Ogum, orixá dos caminhos e das tecnologias, permeia o ambiente, simbolizando força, inovação e a abertura de novas sendas.
No cerne desta celebração, encontramos duas obras de inestimável valor do acervo de Emanoel Araujo: relevos que pontuam momentos cruciais de sua trajetória. Essas peças, marcadas por sua linguagem construtivista e pela profunda pesquisa da geometria em diálogo com a herança africana, são pilares conceituais da mostra. Elas não apenas testemunham a genialidade de Araujo, mas também estabelecem uma ponte temporal e estética, conectando sua visão vanguardista às novas leituras propostas pela exposição. A diversidade de materialidades presentes nas obras de Araujo e Pitta — da rigidez da escultura à fluidez dos tecidos — sublinha o processo de “tecer memórias”, no qual cada fibra e cada forma contribuem para a construção de uma narrativa contínua e multifacetada.
Completando este encontro de forças, a exposição acolhe as icônicas bonecas Abayomis da artista e sacerdotisa Mãe Detinha de Xangô. Essas peças, carregadas de afeto, proteção e da força da mulher negra, ganham um significado ainda mais profundo ao revelarmos que foram presentes dados a Emanoel Araujo e hoje integram o acervo do museu. As Abayomis, feitas de pano e desprovidas de costura, são símbolos de resistência e sabedoria ancestral, materializando uma “pedagogia do sensível”, na qual o fazer artístico é indissociável do cuidar, do lembrar e do regenerar mundos. Elas representam a confluência do sagrado e do estético, enriquecendo a “cosmologia da presença” que a exposição busca evocar.
Um Xirê para Emanoel configura-se, assim, como uma encruzilhada estética e política. É um espaço onde diversas materialidades — da serigrafia e da pintura de Pitta aos relevos de Araujo e às bonecas de pano de Mãe Detinha — se encontram para forjar novas compreensões sobre a arte afro-brasileira. A exposição é um convite à reflexão sobre a potência da arte como veículo de transformação, conhecimento e resistência, reafirmando o legado de Emanoel Araujo e abrindo caminhos para o futuro da arte e da cultura no Brasil profundo.
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Espaço cultural
MAB - Museu Afro Brasil Emanoel Araujo
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