A Farsa Colonial e a Resistência do Povo das Águas, com Júlio César Guató (mediação), Cacica Dalva Maria de Souza Ferreira (Cacica Mathôdjárho) e Jorge Eremites de Oliveira
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O Dia do Pantanal carrega o peso do sacrifício do ambientalista Francisco Anselmo de Barros, o “Francelmo”, cravando no calendário um alerta contra a devastação da maior planície alagável contínua da Terra. Integrando o ciclo do Museu das Culturas Indígenas (MCI) sobre os biomas brasileiros, que já debateu as urgências da Caatinga, Mata Atlântica, Amazônia e Cerrado, este encontro, em formato virtual no YouTube do MCI, confronta a destruição do ecossistema e a violação histórica dos direitos originários.
A atividade destrincha a violência de uma farsa colonial operada pelo Estado brasileiro, que na década de 1950 tentou decretar a “extinção” burocrática do Povo Guató para lotear e explorar o território. A resposta veio pela mobilização comunitária em defesa do território pantaneiro e pela autoafirmação das culturas indígenas, provando que a proteção do meio ambiente e da biodiversidade exige ouvir quem entende as águas como extensão do próprio corpo.
Sob a mediação do professor e ativista Júlio César Guató, que articula a representatividade política, os Direitos Humanos e a cidadania no combate ao apagamento identitário, a conversa reúne duas frentes indissociáveis da luta. A Cacica Dalva Maria de Souza Ferreira (Cacica Mathôdjárho), maior liderança feminina recente dos habitantes originários da região, traz os saberes do Pantanal, as práticas cotidianas e a língua preservada por quem estruturou a existência ao longo de rios. Ao lado dela, o arqueólogo e antropólogo Jorge Eremites de Oliveira detalha as frentes da etnologia indígena e a urgência jurídica e histórica da identificação e demarcação de terras tradicionalmente ocupadas.
O encontro deixa um recado direto: a resistência dos povos indígenas é a principal barreira contra o colapso biológico e cultural do país. Para os povos originários, resguardar a ancestralidade não é um debate teórico, mas uma prática inegociável de sobrevivência e respeito absoluto ao chão.
Sobre a Cacica Dalva Maria de Souza Ferreira (Cacica Mathôdjárho)
Maior liderança feminina da história recente do povo Guató, Dona Dalva ou Cacica Mathôdjárho (nome de infância recebido de seu avô, que significa “flor selvagem”) é a principal guardiã da memória, da língua e dos costumes do Povo das Águas. Sua trajetória de mobilização comunitária em defesa do território pantaneiro começou em 1984. Foi casada com Severo Ferreira, primeiro cacique da Aldeia Uberaba, e posteriormente assumiu o próprio posto de cacica da comunidade. É uma voz ativa na linha de frente pela demarcação de terras e pela garantia de políticas públicas na região de Corumbá e em Mato Grosso do Sul. Aos 78 anos, consolidou mais de três décadas de pesquisas autodidatas, convivência com os idosos de sua etnia e leitura crítica de relatos de cronistas e pesquisadores - a exemplo de Cabeza de Vaca. Todo esse percurso culminou na criação da obra “Memórias e Dicionário Guató de Mathodjárho”, lançada em formato digital em setembro de 2026. Além de organizar o repositório do idioma originário, o livro registra as práticas cotidianas e os saberes do Pantanal: a caça, a pesca, o manejo das águas, o transporte em canoas de pau e a coleta de frutos e matérias-primas para o artesanato.
Sobre Jorge Eremites de Oliveira
Arqueólogo, antropólogo e historiador com sólida trajetória voltada ao direito territorial indígena e quilombola no Brasil. Professor associado da Universidade Federal de Pelotas (UFPel) e colaborador no Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), possui pós-doutorado em Antropologia Social pelo Museu Nacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro (MN-UFRJ), doutorado e mestrado em História/Arqueologia pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS) e graduação em História pela Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS). Atuou como docente na Universidade Federal da Grande Dourados (UFGD) e na Coordenação da Área de Antropologia e Arqueologia da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES). Com ampla atuação em Etnoarqueologia, Etnologia Indígena e Etno-história, dedica-se à elaboração de laudos periciais, administrativos e judiciais para a identificação e demarcação de terras tradicionalmente ocupadas nas regiões Centro-Oeste e Sul do país. Filiado à Sociedade de Arqueologia Brasileira (SAB), à Associação Brasileira de Antropologia (ABA) e à Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), acumula ampla experiência ao lado dos povos Guató, Terena, Kaiowá, Avá Guarani, Nambikwara e Fulni-ô. É colaborador e coautor de “Memórias e Dicionário Guató de Mathodjárho”, obra construída em parceria com a Cacica Dalva Maria de Souza Ferreira.
Sobre Júlio César Guató (mediação)
Natural de Corumbá (MS), carrega na ancestralidade a força do povo Guató; historicamente conhecidos como os “Índios Canoeiros” ou o “Povo das Águas”, habitantes do Pantanal. Professor, escritor e ativista indígena radicado na cidade de São Paulo, atua na linha de frente da defesa dos direitos originários, da representatividade política e do fortalecimento de conselhos comunitários no contexto urbano. Graduado em Letras e Literatura pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), mantém diálogo e articulação de pesquisa com a Universidade Católica Dom Bosco (UCDB). É professor efetivo da rede estadual de ensino e atua como Coordenador-Geral de Ações Afirmativas na Secretaria Municipal de Direitos Humanos e Cidadania de São Paulo (SMDHC). No campo da escrita e da mobilização social, é autor das obras “Seres da Margem” e “Sinfonias em si – Nós em nó”. Com atuação no Coletivo Libertário de Resistência Indígena e na Teia dos Povos, transforma a literatura e a gestão pública em instrumentos diretos de combate ao apagamento das identidades indígenas e de disputa por justiça social.
Sobre o Povo Guató
Os Guató são os habitantes originários do Pantanal por excelência, senhores de um território que ultrapassa 70 mil quilômetros quadrados entre Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e a Bolívia. Conhecidos como o “Povo das Águas” e os últimos representantes das tradições canoeiras nas terras baixas da bacia do rio Paraguai, estruturaram sua existência ao longo de rios, baías e ilhas - como a Serra do Amolar, as lagoas Gaíba e Uberaba e a Ilha Ínsua. Sua língua, que constitui uma família própria no tronco Macro-Jê, traduz uma presença ancestral contínua e uma leitura de mundo forjada no ritmo diário das cheias e secas da grande planície. A integridade desse chão foi violentamente rompida ao longo dos séculos XIX e XX pela expansão pecuária, pelo extrativismo de peles e pelos impactos da Guerra do Paraguai, culminando na expulsão forçada de famílias para as periferias urbanas de Corumbá, Poconé e Cáceres. Nos anos 1950, o órgão indigenista estatal chegou a decretar a falsa “extinção” do povo Guató, utilizando a negação burocrática como tática para cassar direitos e inviabilizar reivindicações fundiárias. A articulação promovida pelas próprias famílias a partir da década de 1970 desmantelou essa farsa colonial, impulsionando a reorganização política do grupo e a reconquista de seus territórios sagrados (como a Terra Indígena Baía dos Guató e a aldeia Uberaba), cravando a autoafirmação Guató como símbolo vivo de resistência e salvaguarda do Pantanal.
Sobre o Dia do Pantanal
O 12 de novembro não é uma data de celebração, mas um marco de denúncia e resistência. A data foi cravada no calendário em memória ao ambientalista Francisco Anselmo de Barros, o “Francelmo”, que sacrificou a própria vida em 2005, ateando fogo ao próprio corpo durante um ato público em Campo Grande (MS), em protesto extremo contra projetos de lei que ameaçavam o bioma. Oficializada em 2008 pelo Conselho Nacional do Meio Ambiente (CONAMA), a data confronta o descaso estatal e exige a defesa contínua da maior planície alagável do planeta.
Sobre o Pantanal
Um território regido pelo pulso das águas. A maior planície alagável contínua da Terra ocupa o centro da América do Sul, na bacia do Alto Paraguai, e ignora fronteiras políticas: divide-se entre Brasil (62%), Bolívia (20%) e Paraguai (18%). Em solo nacional, concentra-se em Mato Grosso do Sul (65%) e Mato Grosso (35%). Reconhecido como Patrimônio Nacional pela Constituição brasileira, além de Patrimônio Natural Mundial e Reserva da Biosfera pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO), o bioma funciona como uma encruzilhada biológica, recebendo o impacto direto da Amazônia, Cerrado, Mata Atlântica e Chaco. A dinâmica da vida pantaneira obedece a um ciclo implacável de cheias e secas. O inverno, de abril a setembro, seca os campos, enquanto o verão chuvoso, de outubro a março, faz os rios locais transbordarem. Entre dezembro e janeiro, a paisagem submerge. Essa pulsação hídrica sustenta a flora de savanas, florestas ribeirinhas e plantas aquáticas (como a vitória-régia e o aguapé), além de garantir a sobrevivência de espécies como a onça-pintada, o tuiuiú, o jacaré-do-pantanal, o cervo, a arara-azul, a capivara e a ariranha. Apesar do título de santuário ecológico, o bioma enfrenta a ameaça iminente de colapso. O Pantanal agoniza diante do avanço do desmatamento, das queimadas em proporções devastadoras, de estiagens cada vez mais severas e dos impactos diretos das mudanças climáticas.
Data: 12/11/2026, quinta-feira
Local: Yotube do MCI
Horário: das 15h às 16h
Entrada: gratuita
Classificação: Livre
Informações: (11) 3873-1541
Observações:
Políticas de entrada
gratuita
MCI - Museu das Culturas Indígenas

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